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Neurocientista: Mesmo Desprezada, "Decoreba" é a Melhor Opção


"Para aprender que flor se chama flor, não há como explicar. Só decorando", afirma o neurocientista Ivan Izquierdo - Foto: Gilson Oliveira/PUCRS / Divulgação
As crianças em idade escolar - e até mesmo os pais - podem não perceber, mas por trás do aprendizado do alfabeto ou da tabuada estão diferentes abordagens, por vezes opostas, que visam a consolidar ensinamentos básicos para o ser humano. A solução encontrada por muitos educadores para o ensino das letras e dos números aos pequenos é decorar: um método defendido por diversos especialistas que também é alvo de críticas, especialmente entre adeptos do construtivismo.
O neurocientista da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e coordenador científico do Instituto do Cérebro do RS (InsCer), Ivan Izquierdo, afirma que não há como fugir da decoreba, pois alguns conteúdos só são possíveis de se aprender por meio desse método. Especialistas em educação defensores da teoria construtivista de Jean Piaget, contudo, dizem que nem toda informação se transforma em conhecimento, e que, por isso, os alunos precisam trilhar seus próprios caminhos de assimilação.
"Decorar é uma das técnicas mais usuais e uma das mais úteis", argumenta Izquierdo. Para o neurocientista, o uso da memória é a melhor maneira de fazer com que uma criança aprenda os números, as letras, a tabuada; na vida diária, afinal, ela decora nomes de pessoas e objetos, poesias ou letras de canções. Do ponto de vista neurobiológico, essa não seria apenas a melhor, mas a única opção. "Para aprender que flor se chama flor, não há como explicar. Só decorando. Alguém diz que é flor, depois a criança repete", frisa Izquierdo. A repetição e a absorção dessas informações pela visão e pela audição, segundo essa lógica, são a raiz de uma memória duradoura.
Na visão construtivista, contudo, o desenvolvimento do conhecimento ocorre por processos. Uma novidade ou algo desconhecido provoca um desequilíbrio. Para reordenar as ideias e criar hipóteses para atingir o aprendizado, o sujeito compreende e aprende a partir de relações com suas experiências e conteúdos previamente assimilados. "Esse é um ponto fundamental da concepção construtivista. Trata-se de um processo, uma construção permanente. A informação não necessariamente se transforma em conhecimento de forma imediata", explica o professor de psicologia do desenvolvimento da Faculdade de Ciências e Letras de Assis da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Mário Sérgio Vasconcelos. Diferentemente da decoreba, a teoria de Piaget prevê que as pessoas podem agir sobre as informações por meio de processos adaptativos que são a assimilação (incorporação de novos elementos) e acomodação (uma adaptação por influência do meio e do próprio ponto de vista do sujeito).
Pela lógica do construtivismo, as crianças dos primeiros anos da educação básica aprendem letras e números conforme o significado que eles têm em suas vidas. A percepção pessoal desses elementos entra em cena, por exemplo, na hora de conhecer o alfabeto. Inicialmente, os professores podem trabalhar o nome da criança e explorar as letras que o compõem, em vez de apenas expor todo o abecedário. Depois, conforme a evolução, dá para incluir outras palavras que fazem parte da vivência dos pequenos. Contudo, Vasconcelos garante que o construtivismo não nega que, se a pessoa exercitar determinada informação, ela pode compreender e conhecer. "Quando as pessoas decoram algumas coisas, elas também aprendem. Mas nem todo conhecimento pode ser assimilado dessa maneira", destaca o professor.
A importância do construtivismo, nesse sentido, é estabelecer as relações necessárias para que isso não seja esquecido. "Memória no construtivismo não é só gravar. Tem que relacionar as informações a outras aprendidas anteriormente", observa a professora de metodologia de ensino da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP) Vânia Galindo Massabni. A especialista afirma que não se pode falar em aprendizagem se não há conservação do conhecimento absorvido - só quando há uma memória estável. O aluno pode simplesmente memorizar a data do descobrimento do Brasil, por exemplo, mas irá aprender de fato quando puder relacionar informações a esse acontecimento histórico. No caso dos conteúdos dos anos iniciais, entretanto, ela admite que muitas das informações vêm de acordos ou convenções sociais e não podem ser construídas, mas sim memorizadas - como é o caso do alfabeto e dos nomes. "Não tem como a criança elaborar por si só. Ela precisa guardar essa informação para que outras memórias sejam construídas dentro de um contexto", considera Vânia.
Decorar não pode ser única alternativa

Izquierdo acredita que o construtivismo é um método extremista que pretende eliminar a decoreba - a mesma que, em alguns casos, poderia ser útil. O neurocientista diz que diversos experimentos já constataram que os mecanismos do cérebro estão preparados para aprender a partir da memorização e da repetição. Mesmo assim, ele reconhece que há outras formas possíveis de ensino. "Se a decoreba é utilizada para aprender absolutamente tudo, claro que não é bom. Algumas coisas só se aprende com o raciocínio", pondera.

Já entre os construtivistas, há dois problemas reconhecidos mesmo por aqueles que defendem a teoria: a possibilidade de deixar de lado conteúdos relevantes e a distorção da aplicação dessas ideias nas escolas brasileiras. Vasconcelos entende que, se um assunto não tem significado ou sentido para os alunos, ou não é de interesse para a cultura ou a vida pessoal, ele pode ser deixado de lado. "Evidentemente ninguém domina todos os conhecimentos", ressalva. Vânia, por sua vez, questiona o que são esses conteúdos fundamentais para cada área. "O que é relevante? Datas históricas ou compreender a importância e o impacto desses fatos?", indaga. Em relação ao uso das ideias do construtivismo, a dificuldade está na preparação dos professores, que não conseguem desenvolver o aprendizado em um ambiente mais democrático como prevê a teoria. Além disso, a divulgação distorcida, na opinião da professora, contribuiu para que se formasse uma visão de que a educação construtivista deixa a criança livre para fazer o que quer, ou estudar só o que deseja.
Enquanto Izquierdo avalia que a decoreba vem sendo injustamente desprezada pelos professores em prol de uma dinâmica que facilita, mas peca na qualidade, os entusiastas do construtivismo apostam que o método proporciona um estudo mais aprofundado. "É um conhecimento mais saudável e duradouro, pois provê os conteúdos de sentido e significado", diz Vasconcelos. Para o professor da Unesp, ainda há o que evoluir, mas a teoria é considerada por ele como a mais completa do ponto de vista da compreensão de como o processo de construção de conhecimento funciona.[Fonte: Terra]

Fazer pausas durante estudo ajuda na memorização, diz pesquisador


Copiar o conteúdo durante a aula, repetir por horas o mesmo assunto e ter um lugar fixo para estudar parece ser uma receita infalível para qualquer aluno. No entanto, estudos comandados por Robert Bjork, do departamento de Psicologia da University of California, Los Angeles (UCLA), nos Estados Unidos, apontam para o lado contrário do que geralmente se pensa sobre o processo de aprendizagem e memorização.
De acordo com as pesquisas, fazer pausas durante as sessões de estudo ajuda na memorização do conteúdo a longo prazo e variar o local de aprendizado aumenta a possibilidade de recuperação de dados importantes. O pesquisador diz ainda que as informações são armazenadas na memória quando relacionadas com o que já sabemos e que recuperar memórias é um instrumento de estudo mais poderoso do que estudar um conteúdo novamente.
Diretor do Laboratório de Aprendizagem e Esquecimento (Learning and Forgetting Lab) da universidade, Bjork é especialista em armazenamento de novas informações e formas de retomá-las em nossa mente. No laboratório, são feitos testes sobre a capacidade de aprender e de memorizar no contexto educacional.
Nos anos 1990, Bjork introduziu os estudos sobre "dificuldades desejáveis" (desirable difficulties), no qual explorou, por meio da mudança nos locais e horários de estudo, a forma como armazenamos e lembramos informações. Seus estudos seguem até hoje e ainda surpreendem. Em entrevista exclusiva ao Terra, Bjork fala mais sobre nossa habilidade de guardar e lembrar memórias e sua relação com o aprendizado.
Terra - Quais são as melhores estratégias para aprender algo? O que os estudos recentes mostram sobre a melhor maneira de memorizar o que aprendemos?
Robert Bjork - É importante entender que não aprendemos somente quando nos expomos à informação que queremos saber. Novas informações são armazenadas em nossa memória quando as relacionamos com o que já sabemos. Isso requer que notemos essas relações e interpretemos ativamente o que tentamos aprender. Igualmente importante é praticar a recuperação da informação que desejamos lembrar. Quando geramos informações a partir de nossas memórias, tornamos a informação recuperada muito mais fácil de ser relembrada no futuro. O ato de recuperar é poderoso no aprendizado - consideravelmente mais poderoso do que estudar as informações novamente. Precisamos ser agentes ativos no processo de aprendizagem, não aparelhos gravadores passivos.
Terra - Como nossa memória trabalha para aprender novos dados?
Bjork - Pela associação desses dados com o que já sabemos. Nossa capacidade de armazenar informações em nossa memória é ilimitada, e aprender novas informações aumenta essa capacidade, em vez de ocupá-la por completo. Quanto mais sabemos sobre algum assunto, mais maneiras surgem de ligar a nova informação ao que já sabemos.
Terra - Como o lugar onde estudamos influencia no processo de aprendizagem? Por que seria melhor variar esse local? 
Bjork - Enquanto nossas memórias são ilimitadas do ponto de vista do armazenamento, somos consideravelmente limitados do ponto de vista da recuperação de dados. Muitas das informações em nossas memórias não podem ser relembradas em circunstâncias normais. O que é possível ou não de ser lembrado em nossa memória depende das marcas do contexto ambiental, interpessoal, emocional ou físico daquele momento.
Então, quando estímulos de algum teste ativam sinais que estavam presentes no tempo do estudo, nossa habilidade de relembrar a informação estudada é aumentada. Mesmo marcas restabelecidas pelo meio - ou seja, se imaginar de volta na situação do aprendizado - pode ajudar a relembrar. Quando algo é estudado duas vezes, parece que a habilidade de relembrá-lo é aumentada se a informação tiver sido estudada em lugares diferentes.
Terra - Por que isso acontece? 
Bjork - O porquê disso não é entendido por completo. Mas variar a localização de um primeiro para um segundo ambiente, provavelmente, faz duas coisas: enriquece a codificação, levando o aluno a codificar a informação de alguma forma diferente durante a segunda sessão de estudo; e enriquece a recuperação, fornecendo dois contextos diferentes que podem ser mentalmente restituídos na hora da prova.
Terra - Normalmente, fazemos uma pausa quando trocamos de assunto durante os estudos. Isso melhora a capacidade de memorização? 
Bjork - O que precisamos evitar é a "prática em massa", que significa estudar a mesma informação repetidamente sem fazer uma pausa entre as sessões de estudo. Dar um tempo entre as sessões de estudo melhora a memorização a longo prazo, às vezes de forma substancial. Quando há múltiplas coisas a serem aprendidas, as horas de estudo dessas coisas devem ser intercaladas, não fechadas em blocos de assuntos.
Terra - Qual a melhor forma de fazer anotações durante as aulas?
Bjork - Notas devem ser feitas somente de forma alternada e em comentários, em vez de maneira literal. A pior coisa que pode ser feita durante os estudos é entrar no modo taquígrafo de tribunal - isto é, tentar copiar tudo da maneira como foi dito. Isso reprime o aprendizado. Um taquígrafo pode gravar tudo que foi dito em um dia ou em um julgamento e depois, no final do dia, não ter nenhuma ideia de sobre o que era o caso.
Terra - É verdade que apagamos de nossa memória coisas que aprendemos há muito tempo?
Bjork - Não é verdade. Informações muito antigas permanecem em nossas memórias, mas se tornam inacessíveis e impossíveis de serem relembradas, a não ser que elas continuem sendo acessadas e usadas